.: Verde que te quero verde, por Pablo Capistrano

WWW.PABLOCAPISTRANO.COM.BR – 03/fev/2010

Infelizmente, a cada dia que passa parece que minha crença particular na falência dos partidos políticos mais e mais se fortalece. Partidos configurados do modo como temos hoje são instituições datadas que em algum momento da história tiveram seu papel, mas que não parecem representar mais as demandas urgentes das comunidades humanas. Talvez seja realmente preciso, para aqueles que ainda acreditam na política, encontrar uma forma de atuação que ultrapasse as grades institucionais e os mandatos eletivos e mergulhe no mundo social sem intermediários.

Natal, hoje, vivencia um exemplo clássico desse tipo de falência partidária. Assumindo a prefeitura com o epíteto de “primeira prefeita eleita pelo PV em uma capital brasileira” Micarla de Sousa protagonizou logo no primeiro ano de mandato uma desconcertante guinada política em direção aos braços do mercado imobiliário. Liberou as construções de espigões na Vila de Ponta Negra, no pé do morro do careca (um dos mais importantes patrimônios naturais da cidade) e acenou com a possibilidade (de acordo com o que foi indicado pelas manchetes de jornal) de liberar o imenso hotel da BRA na via costeira (obra embargada na gestão do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves).

Ora, se você não é de Natal ou nunca veio a nossa cidade é bom saber que essas duas obras foram objeto, na gestão passada, de uma intensa discussão pública que envolveu setores ligados as empresas de construção civil, ministério público, ambientalistas, urbanistas, empresários do setor de turismo e moradores da cidade de um modo geral. Curiosamente, é a prefeita do PV que apela hoje para argumentos técnicos e legalistas a fim de justificar a sua mudança de lado na luta pela construção de uma Natal ambientalmente sustentável.

Esse é o grande indício da absoluta fragilidade de uma legenda que se diz “verde”, antenada com o movimento ambientalista internacional e que em tese deveria ocupar com seu conteúdo programático o vácuo deixado pelo antigo Partido Comunista. Não vou entrar no mérito do problema das construções, deixo isso para quem conhece os detalhes do processo. Eu queria apenas chamar atenção para esse desconcertante paradoxo da política contemporânea, essa estranha ambigüidade que vem travestida de uma amorfia ideológica que faz corar o mais cínico dos teóricos da democracia burguesa.

Pois é, amigo velho, quando uma prefeita verde abandona a luta ambientalista, quando seus secretários municipais passam a ser homenageados pelo setor imobiliário e apregoam mudanças no plano diretor para “ajustar” o crescimento da cidade ao irresistível apelo “eurotico” do fluxo de capitais, quando um gestor abandona o ideário que criou a legenda pela qual foi eleito em prol de um discurso que dilui o conceito de sustentabilidade transformando essa ideia em uma camuflagem retórica para as velhas práticas de degradação urbana que corroeram a qualidade de vida em capitais como Fortaleza, Recife ou Rio de Janeiro, quando isso acontece é porque essa ficção chamada partido político já deu o que tinha de dar.

Até agora, a gestão da primeira capital governada pelo PV anda muito pouco verde. Aliás, se há um tom de verde nessa gestão talvez seja o verde musgo, uma tintura que o manguezal das ideologias políticas rapidamente costuma a imprimir no corpo e na alma daqueles que ascendem ao poder. A propósito… alguém tem o telefone celular de Marina Silva?

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