.: Personagens – artigo de Carlos Magno

NOVO JORNAL – 07/fev/2010

Poderia ser o treinador do América, demitido na terceira rodada do estadual, sem sofrer derrota. Poderia ser a prefeita Micarla de Sousa, por mudar de forma tão radical seu modo de compreender a região em volta do Morro do Careca.

No espaço de apenas 48 horas, ela saltou de ferrenha defensora dos espigões – “este governo não vai ressuscitar a insegurança jurídica nem mudar as regras no meio do jogo” – a rigorosa protetora da área – “a partir de agora, nenhum prédio poderá ser construído no entorno do Morro do Careca”.

Poderia ser, ainda, o titular da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo, Kalazans Bezerra, que viveu semana de inferno astral. Assim como a chefe, ele foi um firme patrocinador dos espigões, pelo quais chegou até a chamar à briga o ex-prefeito Carlos Eduardo: propôs um debate público para ver quem tinha razão no episódio.

Sofreu ainda o agravante de ser o presidente do Conselho Municipal de Planejamento Urbano, que autorizou em janeiro as licenças cassadas agora pela prefeita após receber um laudo técnico da Promotoria do Meio Ambiente. Meu personagem da semana poderia ser, então, Paulo Moroni, a prefeita Micarla ou o secretário Kalazans Bezerra. Mas não são.

Meu personagem, ou melhor, meus personagens são os integrantes do Grupo de Estudos em Habitação, Arquitetura e Urbanismo do Departamento de Arquitetura da UFRN: Paulo José Lisboa Nobre, Maria Dulce Bentes, Ana Claudia Lima e Miss Lene Pereira da Silva, todos com respeitável currículo.

Não são os donos da verdade – decididamente, não são.

No entanto, o laudo que produziram teve o poder não somente de determinar uma revisão de tudo o que se planejava em termos de construções na área próxima ao Morro do Careca, mas de despertar a sociedade para a importância de um bem que, por ser subjetivo, costuma ser difícil de mensurar: a paisagem.

No documento que elaboraram, mostraram de forma técnica que a construção de edifícios aquela região de Ponta Negra provocaria danos irreversíveis à paisagem.

A partir de agora quando se falar em construções em áreas não edificáveis, como outra região da mesma Ponta Negra, ou em erguer novos hotéis na Via Costeira, ou em qualquer outra interferência mais radical em uma de nossas riquezas naturais, virou dever lembrar que a paisagem é um bem da cidade – e sua violação pode ocasionar prejuízos irreversíveis. Taí uma decisão para não se esquecer e um belo serviço prestado a um município que vive conflitos recorrentes porque, mesmo quatrocentão, ainda não aprendeu como crescer dando a devida dimensão do quanto importa preservar suas belezas.

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