Surf: quem é Jadson André, de Ponta Negra para o mundo

Nominuto.com – 2 de maio de 2010
Texto: Rogério Torquato,
com dados da ASP, Abrasp e RTBlau

Fotos: Rogério Torquato e ASP
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Jadson fazia em 2007 a manobra que, três anos depois, derrubaria Kelly Slater.

Depois de Joca Júnior e Danilo Costa, entre outros, o surf internacional fica aos pés de mais um potiguar. Há poucos dias, um rapazinho de 20 anos – completados no último dia 13 de março – chamado Jadson André participou do Billabong Pro Santa Catarina e sagrou-se campeão em sua estreia para valer no WCT, a categoria de elite do surf mundial. O nativo da região da Praia de Ponta Negra, em Natal, teve a audácia – ainda bem! – de sobrepujar nada menos que o estadunidense Kelly Slater, o bambambã da modalidade e detentor de nove títulos mundiais, na grande final da competição. Pronto, um brasileiro entrou para a história do surf, foi o que se ouviu em uníssiono em Santa Catarina.

Quem? Lá vem história. Filho de “seu” Jalton “Jajá” (ou Jailton “Dadá” que, garante o filho, foi jogador de futebol em Natal e escolhido em cinco ocasiões como o melhor em sua posição; pode se tratar de Jailton, campeão pelo ABC na primeira metade da década de 1990, mas os estudiosos e guardiões da memória do esporte potiguar até aqui não encontraram pistas consistentes a respeito) e “Dona” Francineide, Jadson foi criado na Vila de Ponta Negra. Tempos difíceis.

Surf por opção

Por muito pouco não ingressou no futebol – aconteceu por opção. Diz a lenda que, certa vez, estava marcado um “peneirão” no ABC. O dia estava chuvoso, e por isso Jadson desistiu de tomar o rumo da Vila Olímpica alvinegra; acabou indo com um tio à praia, e lá aprendeu a surfar. Foi o que mudou o seu destino.

Entre 2001 e 2002, foi “adotado” pela Oakley, que estava começando a montar uma equipe de surf no país, e qe hoje conta com gente do porte de Adriano “Mineirinho”, outra revelação na modalidade. Por volta de 2005, apadrinahdo pelo surfista Aldemir Calunga – amante das ondas desde o tempo que o Morro do Careca, em Ponta Negra, era mais “cabeludo” – saiu de casa e foi morar no Guarujá, em São Paulo, um ponto mais próximo das principais competições nacionais. Mas nunca deixava de vir a Natal. Onde dava para competir ele ia – e, dentro do possível, sempre “esticava” o caminho pare estes lados, como aconteceu, por exemplo, no ano de 2007, onde, na mesma Ponta Negra onde aprendeu a se equilibrar na prancha, não deixou espaço para ninguém.

Lembranças de um JERNs

Memória de um repórter: era precisamente o dia 22 de outubro de 2007. Jadson participava pela última vez do surf dos Jogos Escolares do Rio Grande do Norte – JERNs. Era sua última participação pelo limite de idade, tinha então 17 anos. O local era a praia de Ponta Negra. Tempo quente de derreter juízo, pouco vento e maré baixa, quase sem ondas. Passava das 10h da manhã quando ele, de colete vermelho, já estava na maré buscando uma onda para fazer desgraça.

Na areia, os jornalistas Rogério Torquato “Blau” e Fábio Cortez repararam que havia um murmúrio só entre os alunos-atletas e boa parte dos professores-técnicos – “Ninguém tem chance! O troféu do juvenil masculino é dele! O homem está na água! O título é dele! É o cara! Não tem para ninguém!” Quem? Os repórteres foram saber de quem se tratava e a quantas andava a situação.

“Estão vendo aquele rapaz de colete vermelho ali na água?”, comentou um componente da comissão organizadora da modalidade, apontando para a água. “Sim…” “Pois é, estamos vendo um campeão” “Quem?” “Jadson André. O que ele tinha que vencer nas competições amadoras que a gente puder imaginar ele já venceu, até no Brasileiro! Agora ele está aqui” – de fato, naquele ano de 2007 nas competições amadoras Jadson havia conquistado tudo o que tinha direito (que o diga um outro jornalista, Renato “Sumatra” Lisboa, que à época tinha um programa semanal de rádio especializado em surf e body boarding em uma FM local, e volta e meia ele dava notícia de Jadson) – “Então quer dizer que…” “É, o surf amador está pequeno para ele. Agora, ele deve ir para o (surf) profissional…” Depois de uma informação dessas, não havia o que fazer: era mirar e “atirar” com a máquina fotográfica e aguadar os acontecimentos.

Quase sem ondas, o rapazinho já “voava” com suas manobras aéreas, as mesmas que derrubariam Kelly Slater três anos depois. quase sem ondas! E não deu outra: Jadson – que na ocasião defendeu o CDF Ponta Negra, detinha o título de campeão brasileiro amador e mal havia chegado de Tabatinga (onde havia disputado outra competição, o Circuito Ecológica) foi absoluto na água e conquistou fácil seu último título nos JERNs, enquanto outos competidores – como Bruno Bussolo, Neto Canella, Rodrigo Baginski e Felipe Carvalho (do H. Castriciano), Daniel Pukey (Objetivo), André Sarmento (Cefet-ETFRN), Lucas Sarmento (Facex), Raul Ribeiro e Leonardo Dutra (CEI) – buscavam preencher as demais posições no pódio. O resultado oficial foi conhecido três dias depois: Jadson campeão, sendo vice um representante da E E José Fernandes Machado, e em terceiro um representante do Atheneu Norte-Rio-Grandense.

Hora de voar mais alto

O pessoal dos JERNs estava certo. Àquela altura de 2007, o surf amador já era pequeno para Jadson. No ano seguinte, em 2008, com seu característico posicionamento de pé direito prticamente no bico da prancha, o rapazinho de Ponta Negra já experimentava competições mais fortes – participou do Campeonato Mundial de Juniores da Billabong e do Oakley Pro Junior – e acabou se destacando, chamando a atenção da mídia internacional; neste ano, sua principal êxito foi o título do Gatorade Surf Classic, uma competição “3-estrelas” da ASP no Brasil.

Com seus aéreos e com a característica de manter o pé direito perto do bico da prancha, Jadsou resolveu “voar” um pouco mais alto. Em 2009, não contou conversa e ficou entre os três mais fortes do WQS, a chamada divisão de acesso do surf mundial, ao vencer o Quicksilver Pro Durban, na África do Sul. Junte-se aí três segundos lugares – no Mundial de Juniores da Billabong, no Hurley Burleigh Pro Junior (em Gold Coast, na Austrália) e no Desafio Qualificatório Global Oakley Pro Jr Global (na Australásia – quer dizer, em praias situadas em países asiáticos e na Aistrália). Pronto, a divisão de elite, o chamado WCT, era apenas uma questão de tempo.

Aéreo fulminante

Exatamente o que aconteceu nestes úlimos dias. Detalhe: o último título do Brasil em casa tinha sido o do paranaense Peterson Rosa em 1998, quando o Billabong ainda era realizado no Rio de Janeiro. “Este é o melhor momento da minha vida e não sei nem o que dizer”, disse Jadson aos presentes, após a etapa catarinense. “Venho sonhando com isso há muito tempo e só tenho a agradecer todo mundo que me ajudou, minha família, amigos, patrocinadores e toda essa torcida aqui na praia (da Vila, no município de Imbituba)”

Na ocasião, falou um pouquinho do seu – digamos – golpe fulminante, o “aéreo”: “É uma manobra que eu treino muito, constantemente. Onde nasci, as ondas são perfeitas para isso e aqui elas estavam do jeito que eu gosto” – em Santa Catarina, as ondas ficaram entre 1 e 1,5 metro de altura – “Com certeza a pressão estava mais com o Kelly (Slater), porque ele é o favorito, nove vezes campeão mundial e está na ponta do ranking. Eu procurei apenas fazer o surfe que vinha fazendo antes e no final deu tudo certo”.

Como resulatdo, o potiguar faturou um prêmio de US$ 50 mil (dólares americanos), além de 10 mil pontos na classificação,o que o fez pular do 13º lugar para dividir o quaerto lugar no ranking do ASP World Title Race com o atual campeão mundial Mick Fanning. À frente deles só estão o líder Kelly Slater, o sul-africano Jordy Smith e Taj Burrow. Falando em sul-africano, a África do Sul está no calendário do Mundial, e justamente no perído da Copa: em meados de junho, está prevista uma etapa do Mundial por lá – e a possibilidade do rapazinho de Ponta Negra “voar baixo” é considerável.

# Veja também: entrevista em vídeo (Surf TV) com Jadson André.
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