Às custas da natureza – parte 1/4

Por Moriti Neto

Segunda menor capital do Brasil, atrás apenas de Vitória (ES) e entre as maiores densidades demográficas do país, a cidade de Natal (RN) enfrenta desafios como a própria fragilidade ambiental e urbanística – ocupação do solo, transporte público, saneamento básico – que vem desde o massacre dos índios potiguaras pelos portugueses, passando pela invasão estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial.
A cidade foi construída sobre dunas e se abastece com água dos lençóis freáticos. O sistema de saneamento básico é fundamentado na utilização de fossas que contaminam com nitrato as reservas de água potável. Dona de uma beleza natural ímpar, a cidade sofre, também, com o desordenamento da construção civil e veículos envelhecidos circulando em sua área. No processo de urbanização, o povo natalense foi envolvido pelo deslumbramento econômico conquistado à custa das belezas naturais. A migração de pessoas de outros estados brasileiros e países estrangeiros, visando à exploração, transformou Natal numa babel com conflitos de identidade. Apenas recentemente, com a finalidade de equilibrar progresso e qualidade de vida, surgiram movimentos organizados e a mentalidade local começou a mudar.
Em agosto de 2006, com o objetivo de chamar atenção da população para o caso dos “espigões de Ponta Negra” (como ficaram conhecidos os prédios que seriam construídos ao lado do Morro do Careca, monumento natural de Natal), surge o SOS Ponta Negra, que logo amplia seu raio de atuação e abraça outras questões, como Plano Diretor, saneamento básico, trânsito e os segmentos social, cultural e comunitário.
O jornalista Yuno Silva, paulistano de nascença, mas morando em Natal há 28 anos, é um dos líderes do movimento. Em agosto de 2006, iniciou uma cruzada pela preservação do Morro do Careca e da praia de Ponta Negra – principal cartão postal natalense – quando viu anúncios de apartamentos ao lado do monumento natural. “Comecei a pesquisar. Primeiro, para saber se alguém fazia ideia do absurdo que a especulação imobiliária estava prestes a cometer com o aval da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente. Segundo, para verificar a legalidade das obras. E, por último, como poderia reverter a situação, apelando para o bom senso”, lembra.
Yuno passou 20 dias recolhendo informações e decidindo se estaria disposto a dar uma guinada na vida pessoal e carreira profissional. Ciente de que enfrentaria interesses políticos e econômicos, sabia que muitas portas iriam se fechar na sua área de atuação. “Mas, felizmente, muitas outras portas se abriram e mergulhei de cabeça na militância ambiental, comunitária e sociocultural voluntária”, conta.
Com a criação de um blog (sospontanegra.blogspot.com) para denunciar a situação, ele conseguiu que o assunto ganhasse dimensão. E, em menos de 20 dias, a prefeitura suspendeu as licenças de construção na área para realizar novos estudos de impacto ambiental. “Vale esclarecer que não sou contra a construção de empreendimentos imobiliários, mas, sim, a favor da paisagem, do crescimento equilibrado das cidades, do desenvolvimento responsável. Infelizmente, esse papo de sustentabilidade ainda é pouco praticado pelas pessoas”, explica Yuno.
O grande problema das construções em Natal, como em tantas partes do Nordeste, é a falta de pesquisas para erguê-las. Investidores estrangeiros chegam com euros e compram grandes faixas da região, degradam o meio ambiente, tendo a conivência de políticos e empresários locais.
Além disso, a cultura nativa é massacrada e não há oferta de qualificação profissional. A inclusão social e o desenvolvimento real do turismo, que são algumas das propagandas alardeadas pelos “investidores”, não acontecem. “Tais fatores só aumentam o abismo social que, historicamente, é acentuado. Consequentemente, a violência cresce. Precisamos de parceiros e não de patrões. Queremos respeito e benefícios duradouros”, reivindica o jornalista.

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