Às custas da natureza – parte 2/4

Por Moriti Neto


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Terra fatiada: os figurões e o sofrimento nativo

A ambição dos construtores não atinge somente a capital. O litoral do Rio Grande do Norte também é vítima da voracidade. Projetos de hotéis resort, campos de golfe e condomínios dividem as mesmas dunas e lagoas três ou quatro vezes. Estudos deveriam equacionar esse problema, pois a conta é simples. Tem-se uma duna e uma lagoa e o ideal seria saber quantos resorts e campos de golfe elas comportam. No entanto, a ausência de critérios técnicos rígidos faz com que o bolo tenha de ser repartido por todos.
E as dezenas de investidores não se contentam com “fatias”. Existe uma guerra para levar o bolo todo. Há construtores potiguares associados com grupos da Espanha, Portugal, Noruega, Itália e Inglaterra, muitos contando com garotos-propaganda de peso, como o jogador Ronaldo “Fenômeno” e o ator Antonio Banderas, no Grand Golf Hotel, e o astro do futebol inglês David Beckham, em um resort em Cabo de São Roque. Eles emprestam nomes e rostos para megaprojetos que seriam construídos no litoral do estado.
Beckham, representando os interesses da duquesa de York, fez o marketing em Cabo de São Roque, tentando convencer a comunidade que a construção seria um ótimo negócio, com a possibilidade de criar uma escolinha de futebol para compensar as perdas sociais de pescadores e rendeiras. Porém, o local abriga reserva natural protegida por lei federal, fato que provocou intervenção da União e paralisou o projeto. Já o Grand Golf Hotel, propagandeado por Ronaldo e Banderas, agora rebatizado Pólo Turístico Ecológico e Aventura de Pitangui e Jacumã, passará por alguns ajustes. Um Termo de Compromisso Ambiental foi firmado entre o Ministério Público e a construtora responsável pela obra, para estabelecer critérios nos municípios de Extremoz e Ceará-Mirim.
“Sabemos por aqui que, além dos cachês, esses figurões ganharam participação imobiliária nos empreendimentos. Muitos destes projetos ainda nem saíram do papel, outros nem obtiveram licenças ambientais, alguns tentaram construir em cima de áreas de preservação ambiental e muitos investidores sumiram após a crise global que se instalou na economia mundial a partir do segundo semestre de 2009. Mas os projetos existem e tem outdoors com os rostos deles estampados”, diz Yuno Silva.
A maioria dos projetos se concentra no litoral norte, numa distância de até 120 km de Natal. Um deles, quando concluído, terá uma área que poderia transformá-lo na quarta cidade do estado em extensão, erguendo mais de 40 mil unidades habitacionais. Comprar terras nessas áreas é extremamente lucrativo. Quilômetros de faixas litorâneas são adquiridos, o que, além de inflacionar o mercado, cria uma expectativa equivocada de progresso, que tropeça na especulação imobiliária. Anteriormente comercializados em moeda nacional, os trechos hoje têm unidades avaliadas em milhões de euros, reflexo da supervalorização gerada pelo excesso de capital especulativo.
Os estrangeiros se aproveitam do apelo publicitário e das condições precárias dos nativos que, por sua vez, esquecem as próprias raízes familiares, vendendo terrenos a baixas quantias. Na realidade, a cultura nativa é massacrada aos poucos. Os habitantes são expulsos da beira mar. Investidores fazem ofertas por distritos inteiros, propondo manter a comunidade no local com um cruel sistema de comodato e período estabelecido. Muitas pessoas ficaram sem terra e não viram o tão falado desenvolvimento. É fato comprovado pelos próprios construtores que a mão-de-obra para erguer os empreendimentos não utiliza potiguares por falta de qualificação e 80% dos postos de trabalho são ocupados por trabalhadores de outros estados.
A falsa promessa de progresso gera frustração em quem já vendeu a propriedade e não tem perspectivas de qualificação profissional para enfrentar a nova realidade, pois não há um programa de inclusão social. A partir disso, surge a explosão de subempregos temporários e informais, além da marginalização das novas gerações, privadas do consumo, sendo o turismo sexual uma das consequências mais graves. Entre 2003 e 2007, o Rio Grande do Norte recebia, semanalmente, voos fretados com 300 homens solteiros, de 25 a 45 anos, oriundos da Europa. Existem registros de aeronaves que chegaram a ser desviadas graças à atuação de entidades civis que pressionam o poder público e buscam enfraquecer a cadeia sexista, que envolve desde o agente de viagem na origem, passa pelo taxista, até chegar a donos de hotéis e pousadas.

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