Mortes de turistas abalam imagem de Natal no exterior

Repórter: Ciro Marques
Natal, mais uma vez, foi destaque nos jornais europeus há duas semanas. Novamente, também o assunto das notícias não eram as belezas naturais da cidade que é destino turístico de milhares de pessoas do Velho Continente todos os anos. A capital do Estado foi parar no noticiário internacional devido à morte de mais um estrangeiro, uma “publicidade” negativa que já preocupa os responsáveis pelo turismo no Estado.
A vítima da vez foi o empresário espanhol André Jaime Romero Conde, 63 anos, e natural da cidade de Granada. Ele e o amigo, o também espanhol Miguel Fernandes, chegavam ao flat Cristallo, onde estavam hospedados, em Ponta Negra, quando foram surpreendidos e rendidos por dois homens armados. Os turistas deram tudo que tinham – carteira, relógio, celular – à dupla. No entanto, quando, segundo o depoimento de Miguel Fernandes, André Jaime se preparava para entregar uma maleta com 8 mil euros (R$ 18,4 mil) dentro, um dos bandidos se assustou e atirou contra o empresário, que foi baleado e encaminhado para o Hospital Walfrego Gurgel, mas morreu ao dar entrada na unidade hospitalar.
No dia seguinte à morte, os principais jornais espanhóis já noticiavam o latrocínio (roubo seguido de morte) que teve o empresário como vítima. A situação foi semelhante a ocorrida no ano passado, após o também latrocínio que vitimou o bombeiro sueco Gert Björn Skytte Sandgren, morto em uma pousada na praia de Pipa. Ele e a companheira, Ann-Christin Olsson, passavam férias há nove anos na Tailândia, mas haviam decidido mudar, vindo para o Brasil para conhecer o litoral potiguar. No entanto, o casal não passou do 10º dia no país: o bombeiro foi assassinado após ter o chalé onde estava invadido por uma pessoa até hoje não identificada, que levou o laptop do turista e atirou contra ele, matando-o.
Logo após a morte do sueco, Natal não sofreu apenas com as notícias negativas divulgadas na mídia internacional, mais realmente prejudicado com o fim dos vôos charters que traziam escandinavos ao Estado. “Já existia expectativa de parar por reclamações de falta de parcerias com o Governo e agora ainda veio esse problema com a morte do turista”, justificou, na época, Cristina Grahn, proprietária de receptivo Scan Plus, empresa operadora dos voos.
Em Natal, há atualmente seis voos charters e não há perspectiva de perder o único vindo da Espanha depois da morte do empresário André Jaime – além do espanhol, Natal é destino de voos charters da Itália (2), de Portugal (2) e da Holanda. No entanto, não há como esconder a preocupação em situações como essa. “A insegurança preocupa sim. Claro. É um impacto negativo que tem reflexo direto no turismo”, afirma o secretário Estadual do Turismo, Múcio Sá, que vê a violência como um problema enfrentado em todo o Brasil. “É uma questão nacional. Fui, por exemplo, assaltado dentro da base aérea do Galião, no Rio de Janeiro, há cerca de 15 dias”, revela o secretário.
Apesar de ser um problema nacional, Múcio Sá reconhece que a situação requer uma atenção especial e muito trabalho, sobretudo, devido a condição de Natal de sede da Copa do Mundo de 2014. “Somos uma das sedes e temos que começar a trabalhar pensando nisso desde já. E precisamos garantir a Segurança Pública para melhorarmos nossa imagem. Mais policiais na rua, um melhor trabalho de inteligência e investigação, não só para os turistas, mas também para a sociedade potiguar”, afirmou o secretário.


Turistas não são bem informados

Toda informação para o turista, é válida. É com essa visão que o secretário da Setur, Múcio Sá, acredita que falta a alguns turistas que visitam a cidade um pouco mais de atenção e cuidado em relação ao problema da violência. “Acredito que é válido, sim, um hotel ou a pousada dar dicas para o turista de como não ser vítima da violência. Principalmente, às pessoas que vêm de locais que não enfrentam esse problema corriqueiramente”.
Para Múcio Sá, um possível exemplo dessa falta de informação foi o que aconteceu ao empresário espanhol André Jaime. “Ele rodou por vários cantos da cidade com uma grande quantia em dinheiro. Ele deveria saber que procurar bancos e agências de cambio menos movimentadas, à noite, e carregando uma maleta, é praticamente pedir para ser assaltado. Não posso afirmar que, nesse caso, o assalto poderia ser evitado, mas em muitos como esse, sim, se o turista tivesse um pouco mais de conhecimento sobre a cidade e em que situações ele corre risco de violência”, afirmou o secretário, enumerando também dicas de segurança básicas, como “não andar com grandes quantias em dinheiro ou muitas joias, não ir às agências bancárias à noite”.
Essa falta de informação é facilmente vista na praia de Ponta Negra, em uma rápida conversa com os turistas que visitam a cidade. “Só disseram que aqui era muito tranquilo, mas não deram nenhuma dica sobre quais lugares não deveríamos visitar e em que horários não era aconselhado andar na rua”, afirmou a turista mineira Patrícia de Carvalho, que passa férias em Natal ao lado do companheiro, Lenis de Carvalho.
O casal de turistas de Goiânia, Lucélia Jacinta da Silva e Valdivino Gomes, recebeu algumas dicas para escapar da violência na cidade, mas só do taxista que os acompanhou do aeroporto Augusto Severo até o hotel onde estavam hospedados. “Ele falou que não era bom caminhar na rua muito tarde da noite e só. Não falou nada sobre os lugares perigosos, assim como o pessoal do hotel também não disse nada”, esclareceu Lucélia Jacinta.
E sem essas informações sobre a segurança pública de Natal, os turistas brasileiros são tão vulneráveis quanto os estrangeiros. Foi o caso do baiano Antônio Bartolomeu Damásio, 62 anos, em junho deste ano. Ele, que era aposentado da Petrobras, havia alugado uma casa de praia em Camurupim, em Nísia Floresta, para reencontrar os filhos que moram nos Estados Unidos e que ele não via há 17 anos. No entanto, os turistas não sabiam o quão perigosa é alugar uma casa de praia em período de baixa estação: nove dias depois de começarem a reunião familiar, a residência à beira-mar foi invadida por dois homens armados. Antônio Bartolomeu reagiu à tentativa de assalto e foi vitimado por mais um latrocínio – ele entrou em luta corporal com um dos bandidos e foi baleado pelo outro.
“Nas férias, é comum se ver muitos veranistas nas praias. No entanto, nos períodos de baixa estação os bandidos aproveitam as casas isoladas e o pouco policiamento para agir. Por isso, não é aconselhado ir para casas de praias em épocas incomuns, a não ser que se tenha uma garantia de segurança”, contou o secretário Múcio Sá.
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