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CMEIs param por atraso nos salários

Foto: Aldair Dantas
CMEI Wilma Dutra, no bairro de Mirassol, não teve aulas por falta de merendeiras para fazer o lanche
Alguns dos 57 Centros Municipais de Educação Infantil de Natal (CMEIs) estão paralisando suas atividades por falta de pagamento dos salários dos funcionários terceirizados. As 75 crianças que estudam no CMEI Wilma Dutra, em Mirassol, não tiveram aula ontem, por falta de merendeiras para fazer o lanche das crianças.
Os funcionários alegam que os os salários estão atrasados há quatro dias. Alguns funcionários não comparecem às unidades porque não receberam nem mesmo o vale transporte para se deslocar ao centro. No CMEI Haydee Monteiro de Melo, localizado em Ponta Negra, as atividades vão ser paralisadas, hoje, informou a direção da unidade à reportagem da TRIBUNA DO NORTE. O motivo também seria a falta de pagamento dos salários e o atraso no fornecimento de vale-transporte.
A demora para pagamento atinge os funcionários de apoio como porteiros, vigias, merendeiras, assistentes de secretaria, como também o atraso no fornecimento do vale-transporte dos professores, vinculados à Secretaria Municipal de Educação.
No CMEI Wilma Dutra, o único funcionário que estava trabalhando ontem, era o vigia Lenildo Monteiro da Silva, que está com o pagamento do salário atrasado, mas recebeu o vale-transporte no dia primeiro de agosto. “Não sei o porquê de ter recebido meu vale-transporte, pois todos os meus colegas não receberam ainda, mas estou vindo trabalhar para guardar os objetos do prédio e atender às ligações”.
No momento em que a reportagem da TRIBUNA DO NORTE esteve no local, a mãe de um aluno telefonou perguntando se haveria aula no dia seguinte, mas o vigia solicitou que ela ligasse pela manhã para confirmar se haveria ou não.
Esta unidade atende 75 crianças de 2 a 5 anos de idade, na qual trabalham, três funcionários da limpeza, quatro vigias, duas merendeiras e nove professoras.
No CMEI Haydee Monteiro de Melo, cerca de cem alunos também vão ficar sem atividades, a partir de hoje, no bairro Ponta Negra, zona Sul da capital. A direção do centro confirma que há alguns dias servidores e terceirizados mantinham as atividades, com recursos próprios, arcando sozinhos com as despesas de deslocamento. Neste Centro, os educadores e prestadores de serviços estão sem receber os vales-transportes. No caso dos funcionários das empresas prestadoras de serviços, a direção também confirmou o atraso no pagamento do salário. Sem alternativa, a administração da unidade resolveu suspender as aulas e comunicou aos pais dos alunos, além de enviar ofício à Secretaria de Educação, com as devidas justificativas da paralisação.
A assessoria de comunicação da Prefeitura do Natal informou que não há atraso no pagamento dos salários, pois os contratos desses funcionários estabelecem pagamento até o dia 10 de cada mês. A assessoria informou que o pagamento será efetuado hoje, 10. Sobre o vale-transporte, a assessoria informou que a situação será regularizada esta semana, o processo de pagamento se encontra na secretaria de Administração e tem previsão de ser concluído até a próxima sexta-feira.
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.: Audiências públicas vão discutir laudo que condenou espigões de Ponta Negra

NOMINUTO.COM – 17/fev/2010
Repórter: Melina França

Laudo técnico será discutido pelo Conplam, professores da UFRN e representantes do Ministério Público.

Mesmo após a prefeitura ter barrado a construção de espigões ao lado do Morro do Careca, em Ponta Negra, o debate em torno do assunto deve voltar a mobilizar a opinião pública natalense na próxima semana. É que representantes do Conplan estão questionando a validade do estudo da UFRN que embasou a decisão da prefeita Micarla de Sousa, anunciada no último dia 4.

O embate entre favoráveis e contrários à construção dos prédios deve se materializar através da realização de duas audiências públicas. Uma delas promovida pelo Ministério Público (MP), na próxima segunda-feira (22), às 15h, na sede da Procuradoria Geral de Justiça (Candelária). O encontro deve contar com a participação de representantes do Conselho Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Complan), professores da UFRN e do público em geral, além do próprio MP.

A outra audiência deve acontecer logo depois, na Câmara de Vereadores, às 9h da quarta-feira (24), tendo sido proposta pelo vereador Raniere Barbosa. Enquanto o MP tem se mostrado contrário aos espigões, Barbosa já emitiu opinião favorável à construção dos prédios, e inclusive votou a favor disso no encontro do Complan que emitiu parecer sobre o caso.

Laudo

O questionamento em torno do laudo da UFRN que condenou a construção dos espigões através do argumento de que esse estudo deveria ter levado em consideração apenas a construção de um prédio no local, o Costa Brazilis, que havia sido o objeto da discussão naquele momento, já que os outros projetos ainda estavam em fase de análise.

O estudo elaborado por professores da universidade fez uma projeção de como ficaria a vista do Morro do Careca e do seu entorno (que fazem parte da Zona de Proteção Ambiental 6) caso os empreendimentos fossem levados à frente. Eles constataram que haveria prejuízo ao chamado valor cênico paisagístico do local, considerado o principal cartão postal da cidade.

“A aprovação dos outros ainda estava em trânsito. Mas, ora, se liberaram um prédio, iam liberar todos. Nesse sentido, a projeção tinha de ser completa. Estão questionando o inquestionável”, critica o jornalista e ambientalista Yuno Silva, um dos principais articuladores do movimento contra a construção dos espigões e fundador da ONG SOS Ponta Negra.

.: O Conplan foi atropelado – por Diógenes Dantas

NOMINUTO.COM / Blog do Diógenes – 10/fev/2010

O Conplan – Conselho Municipal de Planejamento e Meio Ambiente de Natal – foi atropelado – eu diria até desmoralizado – pela prefeita da cidade Micarla de Sousa nesse episódio dos espigões de Ponta Negra.

Órgão consultivo da administração da capital, formado por representantes de quase 20 entidades da sociedade civil, além das Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica -, o Conplan é responsável pelas análises de licenças para obras e projetos de todo o tipo na capital.

Respaldada por uma decisão unânime deste conselho, Micarla de Sousa liberou uma das quatro licenças para obras próximas ao Morro do Careca. E se preparava para capitanear a revisão do Plano Diretor da Cidade a partir deste ano.

Pressionada por instituições importantes como o Ministério Público, que apresentou um novo estudo para contestar o entendimento do Conplan, a prefeita recuou, voltou atrás, e, sem levar o assunto para o conselho, decidiu sozinha suspender a licença e revogar um decreto do antecessor Carlos Eduardo Alves que permitia as liberações dos documentos.

Para muita gente, inclusive os membros do Conplan, a prefeita Micarla de Sousa agiu de maneira débil, fraca, hesitante e medrosa, ao acatar, sem uma discussão mais aprofundada, os argumentos apresentados pelos promotores, por mais corretos que estejam, baseados no estudo de técnicos da UFRN.

Não vamos entrar no mérito de quem tem razão – o Conplan ou o Ministério Público. O que estou discutindo aqui é o procedimento da prefeita de Natal que, a meu ver, foi incorreto. Ela poderia ter esperado alguns dias para ouvir o Conplan, já que a decisão anterior foi unânime e foi acatada por ela própria, para, aí sim, decidir sobre a obra de Ponta Negra.

Está na cara que o Conplan foi atropelado num claro desrespeito aos técnicos e representantes de entidades importantes da nossa sociedade civil e forças militares.

O episódio protagonizado por Micarla de Sousa só aumentou o clima de insegurança jurídica em Natal surgido desde a administração de Carlos Eduardo que liberou licenças para construção de empreendimentos e depois suspendeu.

É preciso esclarecer o que pode e o que não pode fazer na nossa cidade. Nossas autoridades precisam promover um amplo debate e assumir uma postura mais condizente com o interesse público. Mas o que se vê é um grande jogo de cena para defender interesses privados.

Não é desrespeitando órgãos como o Conplan que a prefeita Micarla de Sousa vai colocar um ponto final na insegurança jurídica que reina no município de Natal. Agindo de maneira hesitante, Micarla só contribui para aumentar a confusão.

.: A Prefeita e o Careca – artigo de Carlos Eduardo Alves

www.carloseduardoalves.com.br – 05/fev/2010

A relação da prefeita Micarla de Sousa com o Morro do Careca não tem nada de preservacionismo. Na verdade, tem muito de oportunismo. Suas posições dançam ao sabor do marketing ou dos interesses de grupos do setor imobiliário que financiaram sua campanha. Isso fica muito claro se analisarmos seu comportamento no caso dos espigões. A Operação Impacto gravou uma ligação dela para o vereador Edivan Martins mandando a bancada mudar seu voto e ser favorável aos meus vetos ao Plano Diretor, se não sua candidatura seria prejudicada em 2008, simplesmente por orientação de Balila Santana, sua marqueteira. Em 2007, quando a defesa da paisagem de Ponta Negra ganhou a força de um movimento popular, ela foi uma das primeiras a se apresentar para o ato do abraço ao morro, como deputada estadual do Partido Verde.

Já prefeita, no dia 3 de março de 2009, declarou através da Secretaria Municipal de Comunicação ser contra os espigões, afirmando: “nós temos posição definida em relação aos projetos de Ponta Negra. Não pretendemos autorizar a retomada”. Agora, em janeiro deste ano, mudou completamente o tom do discurso. Alegando uma possível insegurança jurídica, disse ser a favor das construções de vez que o Complan deu parecer favorável. Aliás, o dirigente da Semurb, Kalazans Bezerra, já declarara anteriormente que os processos dos espigões estavam sendo reavaliados para liberação das licenças, seguindo orientação da prefeita, e afirmando que não havia nada irregular que atentasse contra a paisagem do nosso cartão postal.

Por que isso? Porque o decreto que assinei suspendendo as licenças e os alvarás dos espigões, por sinal única forma legal, dava às construtoras amplo direito de defesa, como é do princípio da lei. Só que esse direito apenas foi exercido depois que deixei o governo, porque as construtoras tinham certeza de obter o beneplácito da atual gestão. O que é fácil perceber pelas declarações da prefeita à Tribuna do Norte de 4 de fevereiro. Ela disse que a licença somente foi possível por conta do meu decreto e ainda acrescentou: “eu não tenho qualquer participação nessa questão”, posando de inocente e querendo desviar a culpa para mim, logo eu que me insurgi contra a construção dos espigões, por uma questão de bom senso, por respeito à nossa natureza. Quis me transformar no vilão da história, mas sua máscara caiu.

E caiu por pressão do Ministério Público Estadual, que apresentou laudo de uma arquiteta e parecer de quatro professores do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da UFRN sobre o impacto ambiental das obras. Assim, finalmente a prefeita rendeu-se e na quinta-feira, 4, anunciou a manutenção da cassação das licenças. Natal venceu uma grande batalha, mas todo cuidado é muito pouco. Eles já falam em liberar as obras do hotel da Costeira que fere nossa legislação ambiental e também em revisar precocemente o Plano Diretor de Natal. Vamos ficar atentos, pois podem vir aí novas estrepulias da prefeita.

.: Queres conhecer o vilão… – por Franklin Jorge

NOVO JORNAL – 07/fev/2010

Durante anos ouvi o nome do engenheiro Kalazans Bezerra relacionado à defesa do meio ambiente. Kalazans sempre me pareceu um mero falastrão e, por isso, nunca fui com o seu ecologismo de plantão. Infelizmente não estava enganado. O cara é um arrivista que se deu bem sob as saias de Micarla, defendendo medidas que ferem princípios antes aguerridamente defendidos, ao tempo em que Kalazans Bezerra era – lembram-se? – coordenador do Movimento Pró-Pitimbu e merecia a atenção e a consideração dos natalenses.

Em verdade, estávamos completamente mal informados sobre a verdadeira natureza de seus interesses. Sua bandeira era apenas uma fachada que se apresenta, atualmente, aos olhos de todos, inteiramente puída e esmolambada. Não admira, pois, que o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves o tenha chamado de “corretor”e não de ambientalista, como faria uma pessoa mais desinformada.

Secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), Kalazans defende agora o indefensável, contrariando princípios que em nossa inadvertencia acreditávamos nascidos de uma sincera dedicação à defesa de Natal. Agora, em vez de defender o meio ambiente, ele o agride de maneira descarada, referendando a construção de um espigão de 19 andares em Ponta Negra, o que tem contrariado os moradores do bairro e as pessoas de bom senso. É só o começo, podem crer, de uma devastação urbana sem precedentes na história da cidade.

É interessante notar que ele tomou essa decisão sem discuti-la com a sociedade e, para isso, escolheu o momento certo: quando a Câmara Municipal e o Ministério Público Estadual estavam em recesso. Ora, nada mais conveniente e, ao mesmo tempo, suspeitoso.

Além do mais, Kalazans se aproveitou de um erro de Carlos Eduardo para justificar a construção de espigões em Ponta Negra, quando, se estivesse bem intencionado, lutaria para corrigi-lo e fechar essa brecha deixada pelo ex-prefeito de Natal.

Diz um velho ditado quinhentista que, se queres conhecer o vilão, dê-lhe o poder na mão… E, aí, teremos – no caso em questão – um feroz corretor devorando impiedosamente o direito que todos temos à paisagem e ao verde.

.: Província Submersa, por Alex de Souza

NOVO JORNAL – 21/jan/2010
Republicado no Substantivo Plural

Não se sabe ao certo quando tudo começou a fazer água. Desconfia-se que foi quando as lagoas de captação de Capim Macio, cavadas cada vez mais fundo, encontraram-se com os lençóis freáticos que, tadinhos, transbordavam nitrato por todos os lados, ou quando a maré, implacável, avançou decidida sobre as praias e engordou o Potengi, que não teve outra escolha a não ser roubar o espaço que outrora foi nosso, devolvendo, no processo, os entulhos e dejetos que pacientemente depositou sob a lama malcheirosa de seus mangues. Há quem defenda, no entanto, que foi apenas a mãe natureza, de saco cheio, que achou mais jogo contar com uma bela enseada no lugar onde um dia existiu Natal.

O certo é que a água foi tomando conta de tudo, de tantinho em tantinho, timidamente, incomodando pouco ou quase nada. Por incrível que não possa parecer, nossa elite só se apercebeu do ocorrido quando a Cena Urbana deixou de circular, depois que Vicente Serejo foi tragado junto com a Redinha pelos turbilhões aquosos. O burburinho rendeu muitas notas em blogs e foi assunto no Quartier Latin do Plano Palumbo, mas com uma semana morreu na praia. Talita Moema até comentou, mas só por Direct Messages. Desiludido, o professor João da Mata escreveu um artigo apaixonado no Substantivo Plural e chorou.

O vulgo, mesmo, só se tocou da onda quando o Patrulha da Cidade foi cancelado por falta de pautas, após a submersão da Guarita, do Passo da Pátria, do Canto do Mangue, de Igapó e de Felipe Camarão.

Micarla de Sousa e seus escafandristas, imersos até o pescoço em problemas herdados da gestão de João Rodrigues Colaço, ainda lutaram para substituir a Copa 2014 pelo Mundial de Esportes Aquáticos, na tentativa de garantir pelo menos um troco do governo federal, mas foi tudo em vão. Ao menos, naquele ano, ninguém estranhou quando Papai Noel desfilou de jangada.

Mais triste destino teve a governadora Wilma de Faria, que sequer conseguiu esboçar uma reação quando a lagoa sobre a qual foi construído o Centro Administrativo reivindicou seu antigo leito. Abraçada por dois ou três auxiliares mais fiéis (o resto debandou com as primeiras marolas), ela ainda prometeu que, até o fim do ano, instalaria uma bomba d’água no local. Não deu. Garibaldi, esperto, mandou a assessoria apagar qualquer registro de que ele já foi o Governador das Águas.

Na Câmara Municipal, os vereadores aproveitaram para refazer o plano diretor umas quatro ou cinco vezes, sem juros. Não se sabe o que aconteceu com a Assembleia Legislativa, pois de lá não vaza nada. Mas, um dia, quando os mergulhadores vasculharem no leito do oceano Atlântico em busca da perdida Cidade do Natal, quem sabe esta história virá à tona.

.: Os Políticos e a Metamorfose dos Bichos, por Marcondes Assis

Artigo publicado dia 31/jan/2010, um desdobramento da Carta Aberta ao Sr. Kalazans Bezerra

O Fato

Domingo passado, 24 de janeiro, leio no Novo Jornal opinião de François Silvestre, “Oxigênio”, (p.06) e uma nota na coluna Roda Viva, intitulada “Macro problema” (p. 05). Na quinta-feira seguinte, dia 28, vejo estampada na Tribuna do Norte matéria noticia que o Secretário Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB) autorizara, havia duas semanas, 14 de janeiro, em pleno recesso da Câmara Municipal e no meio das férias da Promotora de Justiça que acompanha o caso, a construção do empreendimento denominado Costa Brasilis, um dos diversos empreendimentos que, diga-se, fora objeto de manifestações promovidas por moradores, ambientalistas, organizações diversas, “verdes” de vários tons e pela própria Prefeitura de Natal.

A correlação entre as matérias está no fato de versarem sobre o poder e a administração pública. Na primeira o articulista estabelece uma diferenciação entre aqueles que respiram o governo, que vivem sob a sombra dos cargos, e os líderes políticos. Na segunda, o jornalista aventa sobre as dificuldades administrativas do município de Natal, e dá como exemplo a folha de pessoal, que em um ano quase dobrou: passou de R$ 18 milhões, em dezembro de 2008, para R$ 30 milhões de reais. Na última, a matéria dá conta da decisão administrava liberando a construção do Costa Brasilis que, por consequência, põe a nu a visão, a opção e o modo de governar da gestão verde.

Breves Considerações

Pensemos só um pouquinho sobre as questões que essas matérias trazem à baila. François Silvestre sentencia: “Hoje, todos os políticos são empresários do poder”. Os assessores, a exemplo de seus líderes, anseiam pelos cargos, pela “renda mensal garantida” e pela “mordomia assegurada”. Isso talvez explique uma das razões, pelo menos um naco, do problema administrativo que Cassiano Arruda noticia como exemplo: o aumento substantivo da folha de pagamento da Prefeitura de Natal, após dezembro de 2008, da ordem de 67%.

No agir do tipo político, traçado por François Silvestre, dos agenciadores do poder e negociantes de cargos, “todos os ódios são combinados” e “toda lealdade temporária”. Ou seja: uma encenação canhestra que alimenta a idéia de “inimigo” para justificar a razão de ser de suas presenças no teatro político, combinada com programas político-partidários de fachada, discursos oportunistas em defesa de demandas populares e profissão de fé de neo-convertidos as convicções alheias.

Se olharmos mais atentamente o debate político, nas últimas duas décadas, que se estabelece por ocasião das eleições, poderemos verificar que o eixo da discussão política foi deslocado. A centralidade dos discursos dos candidatos é o da “experiência administrativa” e da “competência”, ou seja: do especialista que tem conhecimento e competência técnica. Noutras palavras, é um discurso que trata sobre quem é o melhor gerente para administrar a coisa pública, cercado por um corpo técnico de especialistas. É esse corpo técnico de especialistas que dizem ou dão suporte as decisões acerca do que é melhor para a vida em comum.

Esse é o caso do empreendimento Costa Brasilis, um “espigão” de 19 andares, que será construído nas proximidades das dunas onde se encontra o “Morro do Careca”. Com o precedente estabelecido pelo Executivo, outros empreendimentos sub judice podem ser liberados, conforme já se aventa na matéria da Tribuna do Norte.

E esse não é o primeiro caso, nem será o último, das investidas deletérias de imobiliárias, empreiteiras e especuladores imobiliários. O campo do Botafogo, espaço incrustado no coração da Vila, é outra área objeto da sanha especulativa. Ao contrário, esse é um processo que está em andamento de expulsão e deslocamento das populações pobres de Ponta Negra. Registre-se o interesse do condomínio construído vizinho as “Marianas” em retirar a população ali residente das proximidades do muro separador desses dois mundos. A idéia de Ponta Negra ser território dos bem postados na vida é antiga. Por ocasião da decisão de construir um conjunto habitacional nessas plagas, um conhecido empresário desta província teria afirmado que tal decisão iria “empobrecer” Ponta Negra.

Há que se entender que ambientalistas, e verdes de todos os matizes, são proponentes de uma outra forma de estar no mundo, de um novo tipo de sociedade, de um outro modelo de desenvolvimento. É emblemático que a liberação tenha partido, nada menos, de alguém como Kalazans Bezerra, ambientalista de longa data, defensor da preservação do Rio Pitimbu. Não só liberou como declarou que irá defender a liberação em juízo, caso seja ali contestada. Os “critérios técnicos” e as idéias de “desenvolvimento” e de “progresso” são os substratos dessas decisões.

O fato aqui posto reporta a várias questões candentes sobre a ocupação do espaço urbano, o uso do espaço público, sobre serviços públicos e mobilidade, sobre processos de exclusão e segregação. O arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik, no seu livro Estado Crítico. À deriva nas cidades, observa que moradores de favelas “conhecem as truculentas estratégias de intimidação usadas em remoções”, sabem que “a dinâmica territorial urbana é um processo de luta”. Podemos acrescentar que os aglomerados populacionais pauperizados, que não são favelas, sofrem outro tipo de assédio do poder econômico, com vista ao seu deslocamento de parcelas de áreas urbanas que sofreram processos de grande valorização. Diz ele:

Se as “leis do mercado” imobiliário empurram os pobres para as periferias, longe dos empregos e serviços urbanos básicos, o poder público é a instância que deve garantir um princípio democrático no uso dos espaços da cidade.

Para Wisnik, vive-se hoje uma situação paradoxal. Se por um lado Planos Diretores das cidades contemplam instrumentos públicos de defesa de interesses sociais, por outro “as ‘parcerias público-privadas’ tendem a privatizar esse princípio coletivista”. Eis um libelo que revela, em parte, a liberação, pela Semurb, para que seja dado início ao pré-falado empreendimento. Esses instrumentos de defesa social, ambiental e paisagístico existem no Plano Diretor de Natal. No caso do bairro de Ponta Negra, existem diversas áreas especiais e, no caso da localidade da Vila de Ponta Negra, onde se pretende construir tal “espigão”, trata-se de uma Área Especial de Interesse Social (AEIS), cuja regulamentação se arrasta desde sua criação em 2007.

Tzvetan Todorov, membro do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, na sua obra O Jardim Imperfeito, assevera acerca de uma “ideologia cientista” assentada num postulado epistemológico: “o universos é inteiramente determinado e cognoscível”. Havendo descoberto as leis objetivas do real, a ciência moderna torna-se “a via real desse conhecimento”, cabendo a ela “fazer que as conheçamos”. Esse “conhecimento do existente conduz à técnica, que permite a fabricação de um existente melhorado”. Aspectos dessa ideologia são de tal forma comuns a conservadores e revolucionários, a utopias antigas e modernas, que ele enxerga a explicação, em parte, da facilidade com que um considerável número de pessoas passem da “extrema direita” para a “extrema esquerda” e vice-versa. Essa assertiva nos remete, certamente, a “lealdade temporária” de François Silvestre.

Essa ideologia, tendo esses fundamentos, se insinua, segundo Todorov, no âmbito das democracias ocidentais, intervindo “em numerosos aspectos da vida pública”. Desse modo, o agir político se submete ao conhecimento, pois crêem que os fins buscados “decorrem automaticamente dos processos que a ciência descreve”. Por conseqüência, “uma coisa se torna boa pelo simples fato de ser frequente” e o perito substitui o político enquanto provedor de finalidades.

A Metamorfose

Finalmente falemos de bichos e de sua analogia com políticos. Pois bem, encasquetado com o que disse François Silvestre, acerca da lealdade temporária do tipo político em ascensão, comecei a pensar sobre o fato da Chefe do Executivo, assim como o Chefe da Semurb, pertencerem ao Partido Verde, e sobre os compromissos programáticos desse partido e ambientalistas em geral.

Dizem os antropólogos que o homem gosta de criar símbolos e com eles tem uma estreita relação. É um animal simbólico. O símbolo tem como uma de suas característica sugerir, representar ou substituir algo. Lembrei-me, então, que a marca, o símbolo da campanha eleitoral da Prefeita de Natal foi uma borboleta. De tal sorte esse símbolo colou à sua imagem, que a população em vez de referir-se a ela pelo nome, passou a nomeá-la “borboletinha”.

Comecei a divagar sobre borboletas. De fato, as borboletas evocam muitas imagens. São femininas por excelência, não existem “borboletos”. Entre outros atributos, são coloridas, frágeis, bonitas, lembram flores e, por isso, primavera. Por chamarem atenção, há colecionadores de borboletas. Esse inseto, as borboletas, tem um modo peculiar de existência. É o fato que não procriam borboletas, mas lagartas, um bichinho que é um comilão insaciável. Devastam o verde das plantações, podendo causar sérios prejuízos ao trabalho alheio. Depois, vira crisálida, produz uma casca resistente em sua volta, parece morto. E de uma hora para outra aparece borboleta. Nem de longe lembra o bichinho devastador.

Fiquei pensando sobre o ciclo das borboletas e o ciclo eleitoral. A cada quadriênio uma revoada de borboletas; a cada quadriênio uma revoada de agenciadores do poder e negociantes de cargos, com “todos os ódios combinados” e “toda lealdade temporária”. Lembrei-me das lagartas que as borboletas produzirão. Tais lagartas comerão todos os compromissos assumidos e devastarão as esperanças dos despossuídos. Depois produzirão uma couraça protetora, parecerão mortas, para, em seguida, ressurgirem metamorfoseadas em coloridas borboletas.

Lembrar de metamorfose é relembrar de Franz Kafka. A metamorfose kafikiana é sobre um homem que vira barata. E rasteja.

Atenciosamente,

Marcondes
Morador de Ponta Negra