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Mortes de turistas abalam imagem de Natal no exterior

Repórter: Ciro Marques
Natal, mais uma vez, foi destaque nos jornais europeus há duas semanas. Novamente, também o assunto das notícias não eram as belezas naturais da cidade que é destino turístico de milhares de pessoas do Velho Continente todos os anos. A capital do Estado foi parar no noticiário internacional devido à morte de mais um estrangeiro, uma “publicidade” negativa que já preocupa os responsáveis pelo turismo no Estado.
A vítima da vez foi o empresário espanhol André Jaime Romero Conde, 63 anos, e natural da cidade de Granada. Ele e o amigo, o também espanhol Miguel Fernandes, chegavam ao flat Cristallo, onde estavam hospedados, em Ponta Negra, quando foram surpreendidos e rendidos por dois homens armados. Os turistas deram tudo que tinham – carteira, relógio, celular – à dupla. No entanto, quando, segundo o depoimento de Miguel Fernandes, André Jaime se preparava para entregar uma maleta com 8 mil euros (R$ 18,4 mil) dentro, um dos bandidos se assustou e atirou contra o empresário, que foi baleado e encaminhado para o Hospital Walfrego Gurgel, mas morreu ao dar entrada na unidade hospitalar.
No dia seguinte à morte, os principais jornais espanhóis já noticiavam o latrocínio (roubo seguido de morte) que teve o empresário como vítima. A situação foi semelhante a ocorrida no ano passado, após o também latrocínio que vitimou o bombeiro sueco Gert Björn Skytte Sandgren, morto em uma pousada na praia de Pipa. Ele e a companheira, Ann-Christin Olsson, passavam férias há nove anos na Tailândia, mas haviam decidido mudar, vindo para o Brasil para conhecer o litoral potiguar. No entanto, o casal não passou do 10º dia no país: o bombeiro foi assassinado após ter o chalé onde estava invadido por uma pessoa até hoje não identificada, que levou o laptop do turista e atirou contra ele, matando-o.
Logo após a morte do sueco, Natal não sofreu apenas com as notícias negativas divulgadas na mídia internacional, mais realmente prejudicado com o fim dos vôos charters que traziam escandinavos ao Estado. “Já existia expectativa de parar por reclamações de falta de parcerias com o Governo e agora ainda veio esse problema com a morte do turista”, justificou, na época, Cristina Grahn, proprietária de receptivo Scan Plus, empresa operadora dos voos.
Em Natal, há atualmente seis voos charters e não há perspectiva de perder o único vindo da Espanha depois da morte do empresário André Jaime – além do espanhol, Natal é destino de voos charters da Itália (2), de Portugal (2) e da Holanda. No entanto, não há como esconder a preocupação em situações como essa. “A insegurança preocupa sim. Claro. É um impacto negativo que tem reflexo direto no turismo”, afirma o secretário Estadual do Turismo, Múcio Sá, que vê a violência como um problema enfrentado em todo o Brasil. “É uma questão nacional. Fui, por exemplo, assaltado dentro da base aérea do Galião, no Rio de Janeiro, há cerca de 15 dias”, revela o secretário.
Apesar de ser um problema nacional, Múcio Sá reconhece que a situação requer uma atenção especial e muito trabalho, sobretudo, devido a condição de Natal de sede da Copa do Mundo de 2014. “Somos uma das sedes e temos que começar a trabalhar pensando nisso desde já. E precisamos garantir a Segurança Pública para melhorarmos nossa imagem. Mais policiais na rua, um melhor trabalho de inteligência e investigação, não só para os turistas, mas também para a sociedade potiguar”, afirmou o secretário.


Turistas não são bem informados

Toda informação para o turista, é válida. É com essa visão que o secretário da Setur, Múcio Sá, acredita que falta a alguns turistas que visitam a cidade um pouco mais de atenção e cuidado em relação ao problema da violência. “Acredito que é válido, sim, um hotel ou a pousada dar dicas para o turista de como não ser vítima da violência. Principalmente, às pessoas que vêm de locais que não enfrentam esse problema corriqueiramente”.
Para Múcio Sá, um possível exemplo dessa falta de informação foi o que aconteceu ao empresário espanhol André Jaime. “Ele rodou por vários cantos da cidade com uma grande quantia em dinheiro. Ele deveria saber que procurar bancos e agências de cambio menos movimentadas, à noite, e carregando uma maleta, é praticamente pedir para ser assaltado. Não posso afirmar que, nesse caso, o assalto poderia ser evitado, mas em muitos como esse, sim, se o turista tivesse um pouco mais de conhecimento sobre a cidade e em que situações ele corre risco de violência”, afirmou o secretário, enumerando também dicas de segurança básicas, como “não andar com grandes quantias em dinheiro ou muitas joias, não ir às agências bancárias à noite”.
Essa falta de informação é facilmente vista na praia de Ponta Negra, em uma rápida conversa com os turistas que visitam a cidade. “Só disseram que aqui era muito tranquilo, mas não deram nenhuma dica sobre quais lugares não deveríamos visitar e em que horários não era aconselhado andar na rua”, afirmou a turista mineira Patrícia de Carvalho, que passa férias em Natal ao lado do companheiro, Lenis de Carvalho.
O casal de turistas de Goiânia, Lucélia Jacinta da Silva e Valdivino Gomes, recebeu algumas dicas para escapar da violência na cidade, mas só do taxista que os acompanhou do aeroporto Augusto Severo até o hotel onde estavam hospedados. “Ele falou que não era bom caminhar na rua muito tarde da noite e só. Não falou nada sobre os lugares perigosos, assim como o pessoal do hotel também não disse nada”, esclareceu Lucélia Jacinta.
E sem essas informações sobre a segurança pública de Natal, os turistas brasileiros são tão vulneráveis quanto os estrangeiros. Foi o caso do baiano Antônio Bartolomeu Damásio, 62 anos, em junho deste ano. Ele, que era aposentado da Petrobras, havia alugado uma casa de praia em Camurupim, em Nísia Floresta, para reencontrar os filhos que moram nos Estados Unidos e que ele não via há 17 anos. No entanto, os turistas não sabiam o quão perigosa é alugar uma casa de praia em período de baixa estação: nove dias depois de começarem a reunião familiar, a residência à beira-mar foi invadida por dois homens armados. Antônio Bartolomeu reagiu à tentativa de assalto e foi vitimado por mais um latrocínio – ele entrou em luta corporal com um dos bandidos e foi baleado pelo outro.
“Nas férias, é comum se ver muitos veranistas nas praias. No entanto, nos períodos de baixa estação os bandidos aproveitam as casas isoladas e o pouco policiamento para agir. Por isso, não é aconselhado ir para casas de praias em épocas incomuns, a não ser que se tenha uma garantia de segurança”, contou o secretário Múcio Sá.
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Rede de esgoto estoura em Ponta Negra e dejetos escoam para praia

Foto: Adriano Abreu
Dejetos da rede de esgoto estão escoando para a praia
O vazamento numa rede de esgotos na rua Francisco Gurgel, em Ponta Negra, nas proximidades do Hotel Esmeralda, levou sujeira e dejetos até a areia da praia. O esgoto corria a céu aberto, desde as primeiras horas da manhã, afugentando turistas e prejudicando os comerciantes do local. O transbordamento ocorre dias depois da fiscalização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb)
A tampa de uma das saídas da tubulação da Caern quebrou, provocando o vazamento de esgoto. Para evitar a poluição das águas, alguns barraqueiros escavarm uma vala na areia, represando as águas servidas que desciam pela rua acima da escadaria até o local de banho. Uma espécie de mini-lagoa de podridão se formou a poucos metros das cadeiras e guarda-sóis. Uma língua negra se formou no local.
“Chamamos a Caern, mas até chegarem a gente precisa dar um jeito, é nosso local de trabalho que está sendo agredido”, disse Luiz Antonio Correia, proprietário do ponto 45, enquanto escavava a areia para conter os dejetos.
Segundo o barraqueiro Adelson Cavalcanti, o rompimento de galerias e bocas de lobo não é freqüente nesta área da praia, ao contrário do que acontece nas proximidades do Morro do Careca. Para atrair os freqüentadores de volta à barraca, Adécio gastou cerca de dez vasilhames de desinfetante para lavar o calçadão próximo ao quiosque e a areia da praia. “O mau cheiro espanta todo mundo e a gente sobrevive disso”, justifica.
No sábado (17), uma fiscalização da Semurb identificou dois outros pontos de poluição em Ponta Negra. Um deles próximo ao Morro do Careca e que há muito tempo vem sendo denunciado pela TRIBUNA DO NORTE. Segundo o técnico fiscal da Semurb, Ivan Lopes, a tubulação por onde vazava o esgoto no sábado, 17, era da Companhia de Águas e Esgotos do RN (Caern), que foi autuada e multada. O valor da multa varia entre R$ 300 e R$ 1.600.
O comerciante paulista Luis Bessa, de férias em Natal, lamentou a situação da praia. “É no mínimo desconfortante se deparar com dejetos. Natal é uma cidade turística e seu principal cartão postal nada em esgoto? Onde estão os governantes que deixam isso acontecer?”, questionou.
Segundo informações da assessoria de imprensa da Caern, o acumulo de lixo obstruiu a rede de esgoto. O vazamento foi contido por volta das 11h da manhã.

Praias impróprias prejudicam Turismo

Foto: Adriano Abreu
A maioria das praias urbanas de Natal está imprópria para banho, de acordo com o mais recente monitoramento da balneabilidade das praias da Grande Natal, dentro do Programa Água Azul, que é executado em parceria com instituições públicas do Estado que cuidam do meio ambiente e recursos hídricos. Pela capital potiguar ser um dos cinco principais destinos turísticos do país, a Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH) se preocupa com a possibilidade de o problema afetar negativamente o setor, fazendo com que o fluxo de visitantes diminua, uma vez que a cidade é mostrada como um local de sol e belas praias.
Das 30 praias monitoradas pelo Programa Água Azul, oito estão com água imprópria para banhoSegundo dados do mais recente monitoramento da balneabilidade das praias da Grande Natal, das 30 praias onde é feito o controle no estado, oito estão impróprias, sendo todas na capital. Os locais nos quais as pessoas não devem tomar banho são Ponta Negra (acesso principal), Mãe Luíza, Miami, Areia Preta, Praia do Meio, Artistas, Forte e Redinha. No relatório anterior, a praia de Ponta Negra encontrava-se própria para o banho.
De acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH) no RN, Enrico Fermi, a poluição nas praias natalenses ainda não tem se refletido na captação de turistas, uma vez que as pessoas só ficam cientes da questão quando já estão em Natal. Entretanto, ele diz que as pessoas que visitam Natal reclamam bastante ao se deparar com praias impróprias para o banho e ao voltar para as cidades de origem, elas divulgam o fato, o que pode fazer com que possíveis turistas deixem de vir para o Estado.
Para Fermi, essa questão deve ser resolvida o mais rápido possível e o saneamento tem que ser encarado como prioridade, assim como a infraestrutura. Ele cita o projeto do emissário submarino, que deverá levar o esgoto da Zona Sul de Natal até alto-mar, como uma possível solução, mas lamenta que o processo de sua implantação seja demorado, por precisar cumprir diversos trâmites. “O processo da democracia é trabalhoso, mas é imprescindível que seja encontrada uma solução rapidamente”, conclui.
Caern
De acordo com a Caern é realizada uma fiscalização das áreas litorâneas de Natal e não foram constatados vazamentos de esgotos que tenham gerado poluição nas praias da capital identificadas como impróprias. Os técnicos da Caern atribuem o comprometimento da balneabilidade ao uso indevido das galerias de água pluvial pelos usuários, que fazem ligações clandestinas de esgotos, gerando poluição nas praias.
Embora conhecidas as causas do problema, a Companhia aponta dificuldades para solucioná-lo. “A Caern não tem poder de polícia nem autorização para entrar nas residências e punir quem liga esgoto clandestinamente ou lança as águas servidas nas vias públicas”, explica o gerente da Regional Natal Sul da Caern, Lamarcos Teixeira. Segundo ele, a justificativa de que as pessoas fazem ligação clandestina pela falta de saneamento não procede. Isso porque em todas as praias onde foi detectado alto índice de poluição, a Caern possui sistema de esgotamento funcionando normalmente.
Uma iniciativa para evitar o transbordamento de esgotos no trecho da orla que fica perto de Mãe Luiza é a readequação da Estação Elevatória de Esgotos do Relógio do Sol, que coleta os esgotos do bairro. Mãe Luíza já teve 100% da rede de esgotos assentada, faltando apenas o final dos testes e início das operações da Estação de Tratamento de Esgotos do Baldo para interligar essa rede. Até lá, a Companhia pede que a população denuncie os casos de ligações clandestinas de esgotos, evitando que a balneabilidade daquele trecho fique comprometida.
Em Ponta Negra, rotina é a mesma
Uma das praias consideradas impróprias para o banho é Ponta Negra, cartão postal de Natal. Na manhã de ontem, apesar da placa posicionada no calçadão, bem próximo ao principal acesso à praia, indicar a situação da água, muitas pessoas entravam no mar, aparente sem se importar com a poluição no local.
Comerciantes e prestadores de serviço que atuam no local afirmam que poucas pessoas notam a sinalização a respeito da qualidade da água e os visitantes não costumam se queixar do problema. “Tem turista que reclama da sujeira na areia, mas da qualidade da água, nunca ouvi queixa. Acredito que a maioria nem perceba a sinalização”, conta o taxista Ivan Ângelo, que trabalha há 10 anos na praia.
Foi o caso da artista plástica de São Paulo, Zenaide Herlein, que demonstrou surpresa ao ser questionada se não a preocupava a água do local estar classificada como imprópria. “Se eu tivesse percebido a placa com a indicação, certamente não teria ficado na praia. Estou com duas crianças e uma delas está apresentando alergia, que pode até ter sido causada pela água”, lamenta.
Já Maria Núbia Souza estava atenta e optou por nem ficar na areia por muito tempo. A natalense, que hoje mora em Brasília, diz ser um absurdo as autoridades deixarem Ponta Negra ficar nesse estado. “O jeito é procurar outra opção de lazer, que não ofereça risco à saúde da minha família. Vou tomar banho de ducha, agora”, brinca, ao mesmo tempo em que demonstra indignação com o fato.

Ofício Aspoan: Denúncia – Aterramento de Ponta Negra

Ofício nº 004/2010
Natal, 14 de março de 2010

EXMO.SR.
DR. FÁBIO NESI VENZON
DD. PROCURADOR DA REPÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

SR. PROCURADOR,

No ano passado no dia 16 de agosto, encaminhanos a V. Exma. O e-mail* que segue abaixo com a denúncia sobre o Aterramento de Ponta Negra, novamente hoje, recebemos esta denúncia onde a pessoa que nos informou das negociações adiantadas para o aterramento de uma faixa de 86 m de largura na praia de Ponta Negra.

Na época não recebemos nenhum comunicado de V.Exma. Sobre esta questão, entretanto gostaríamos de marcar neste final de mềs uma Audiência para discutirmos esta questão específica.

Ficamos no aguardo de uma resposta e nos colocamos à inteira disposição.

Atenciosamente,

Francisco Iglesias
Presidente Aspoan

ASPOAN – Associação Potiguar Amigos da Natureza
. Membro do GI-GERCO – Grupo de Integração Gerenciamento Costeiro/Conama/MMA
. Membro da Coordenação do GT Clima do Fórum Brasileiro de Ongs e Movimentos Sociais
. Membro do GT de Desertificação da ASA – Articulação do Semi-Árido
. Membro da RMA – Rede Mata Atlântica
. Membro da CAN – Climate Action Network
. Membro do Conerh – Conselho Estadual de Recursos Hidrícos
. Membro da CIEA – Comissão Interinstitucional de Edicação Ambiental do RN

######## * e-mail/ofício * ########

Ofício nº 025/2009
Natal, 16 de agosto de 2009

EXMO.SR.
DR. FÁBIO NESI VENZON
DD. PROCURADOR DA REPÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

ASSUNTO: DENÚNCIA – ATERRAMENTO DE PONTA NEGRA

SR. PROCURADOR,

A nossa vice-presidente, Dra. Regina Kotke, esteve no dia 13 de agosto, em um jantar ** convocado pela Secretaria Municipal de Turismo da Prefeitura de Natal, com todas as modalidades médicas da cidade, a fim de que capitaneassem os congressos de médicos para nossa cidade para fortalecer o turismo local.

** Médicos agora são embaixadores do turismo da cidade – 14/ago/2009
[www.natal.rn.gov.br/noticia/ntc-1094.html]

Acontece que ela ficou chocada assim como nós com a afirmação feita por um dos palestrantes de que a Prefeitura Municipal do Natal, estava contatando uma empresa portuguesa, que fez o aterro do Flamengo, para efetuar estudos para o aterramento da Praia de Ponta Negra,

É uma novidade absurda. A Prefeitura não consegue cuidar da praia de Ponta Negra com coisas simples como a limpeza da mesma, mas, já pensa em fazer uma obra absurda e polêmica, destruindo um dos mais belos patrimônios paisagísticos do nosso estado e do Brasil.

Gostaríamos que V.Exma confirmasse a veracidade das afirmações realizadas durante este jantar e quais seriam as reais pretensões da Prefeitura nesta questão.

Sem mais nos colocamos à inteira disposição.

Às custas da natureza – parte 4/4

Por Moriti Neto


>>> Continuação:

Impactos da ausência

Expansão urbana incompatível com infraestrutura sanitária, escassez de oferta de serviços públicos eficientes, degradação dos recursos naturais e concessões pouco criteriosas fornecidas pelo Poder Executivo, colocaram o Ministério Público como ator chave do processo de revisão do Plano Diretor de Natal. Uma ação foi acatada pela Justiça para impedir regras que ensejariam um super adensamento do solo sem infraestrutura. A medida também contemplou pedidos de proteção da paisagem e da ventilação da cidade, com a proibição de construções verticalizadas na área de contorno da “Unidade de Conservação Parque Estadual Dunas do Natal Jornalista Luiz Maria Alves”, considerado o segundo maior parque urbano no Brasil. “Os maiores desafios dos gestores englobam o respeito às normas de ordenamento urbano, o investimento em estudos ou diagnósticos ambientais e em saneamento básico”, ressalta Gilka da Mata.
Para o arquiteto Francisco Iglesias, as autoridades do Executivo pecam por falta de planejamento e conhecimento “Não há planejamento por parte de quem concede as licenças. Não são estudados o volume de consumo de água, a capacidade de abastecimento, a questão dos resíduos sólidos, tudo relacionado ao aumento da população. Natal é a única prefeitura de capital, no Brasil, administrada pelo Partido Verde (PV). Só que os verdes, em alguns casos, estão mais para marrons, pois corroboram a destruição ambiental. Sobre o governo estadual, eles não sabem nada. Tem projeto de construtora espanhola para 230 mil pessoas no litoral norte sem estudo apropriado. Imagine o impacto disso. Os governantes consideram a questão ambiental restritiva, só levam em conta o custo de uma política ambiental séria e não os benefícios futuros”, analisa
Na questão ambiental, a ausência das autoridades é notada na preparação das políticas públicas. O Brasil carece de legislação própria para projetos de saneamento. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Cícero Onofre defende a criação de um sistema público de esgoto sanitário. “Um sistema público de esgoto sanitário significa qualidade de vida. Não podemos continuar infiltrando esgoto no solo, como no caso de Natal, e beber a água na ponta”, observa. Sobre a construção indiscriminada dos empreendimentos imobiliários, ele avalia: “Precisamos de sistemas mais amplos de pesquisa, mais até do que os estudos de impacto. Necessitamos de avaliações estratégicas no caso de pressão populacional e imobiliária. Isso, se desejarmos evitar crimes maiores dos que já aconteceram e acontecem”.

Às custas da natureza – parte 3/4

Por Moriti Neto


>>> Continuação:

Saneamento básico, uma questão à parte

As construções que proliferam no Rio Grande do Norte trazem outro sério dilema. O saneamento básico é questão que aflige ambientalistas e pesquisadores. Para resolver a contaminação do lençol freático por nitrato, um sistema de coleta de esgoto com estações de tratamento precisaria de grandes espaços e alto investimento. E necessitaria, ainda, de mão-de-obra especializada em escala considerável.
Com a urgência sanitária e a falta de um destino útil para o esgoto tratado, como a reutilização da água para fins industriais e irrigação, optou-se pela construção de um emissário submarino, em Natal. O sistema resolveria o problema da falta de saneamento para cerca de 40% da cidade, mas sua implantação ainda esbarra na falta de estudos de impacto ambiental, pois não foi considerada a atividade pesqueira em Ponta Negra. Pouco se conhece sobre a fauna marinha da área, as amostras de dados são insuficientes para fazer uma modelagem computadorizada sobre a dinâmica costeira – medindo ventos e correntes marinhas –, fatores fundamentais para assegurar o funcionamento. “A pressa para resolver o problema é justamente para permitir um maior adensamento e a verticalização na zona sul da cidade, onde ficam Ponta Negra e outros bairros nobres. Afinal, querem resolver o problema da falta de saneamento ou intensificar a especulação imobiliária?”, indaga o arquiteto potiguar Francisco Iglesias.
Após quatro anos de debates, foi constatada a necessidade de um tratamento prévio antes que o esgoto chegue ao mar. Inicialmente, o emissário submarino teria apenas um tratamento primário, mas a movimentação dos ambientalistas garantiu ao projeto o tratamento secundário, em março de 2010, quando o Ministério Público apresentou laudo realizado por técnicos da Universidade de São Paulo (USP). “A intenção da empresa concessionária do serviço de esgotamento sanitário em Natal, teve início em março de 2008. Mas a proposta inicial de implantar um emissário foi fundada em um estudo de impacto ambiental muito superficial e incompleto. Os estudos oceanográficos foram considerados insuficientes e não havia a contemplação de um dos estudos mais importantes no que diz respeito a emissários, que é o de modelagem computacional, que tem a função de realizar simulações para avaliar as condições de balneabilidade da praia, se a praia ficará própria ou imprópria para o banho”, enfatiza a promotora do meio ambiente de Natal, Gilka da Mata.
Dessa maneira, foram recomendados estudos de alternativas de destino final dos esgotos coletados, tendo em vista que o emissário constava praticamente como única opção. No último dia 19 de março, em audiência pública, a comissão da USP apresentou uma parcial das conclusões que revelaram a necessidade de estudos complementares. Em decorrência das contribuições e das informações fornecidas, o Ministério Público adicionou questões complementares aos peritos, que estão elaborando parecer final. “Ao encaminhar os quesitos finais, o Ministério Público (estadual e federal) pediu aos peritos que respondessem questões relativas à necessidade de instalação de um emissário, já que Natal é um município costeiro cuja principal fonte de renda vem do turismo, calcado na balneabilidade e beleza de praias e do mar, e que a qualidade da água, segundo campanhas de balneabilidade, é própria para banho. Também questionou se em cidades costeiras de países desenvolvidos, cuja economia é fundada também no turismo de balneários, o reuso não seria uma tendência em detrimento de emissários submarinos”, esclarece a promotora.

Às custas da natureza – parte 2/4

Por Moriti Neto


>>> Continuação:

Terra fatiada: os figurões e o sofrimento nativo

A ambição dos construtores não atinge somente a capital. O litoral do Rio Grande do Norte também é vítima da voracidade. Projetos de hotéis resort, campos de golfe e condomínios dividem as mesmas dunas e lagoas três ou quatro vezes. Estudos deveriam equacionar esse problema, pois a conta é simples. Tem-se uma duna e uma lagoa e o ideal seria saber quantos resorts e campos de golfe elas comportam. No entanto, a ausência de critérios técnicos rígidos faz com que o bolo tenha de ser repartido por todos.
E as dezenas de investidores não se contentam com “fatias”. Existe uma guerra para levar o bolo todo. Há construtores potiguares associados com grupos da Espanha, Portugal, Noruega, Itália e Inglaterra, muitos contando com garotos-propaganda de peso, como o jogador Ronaldo “Fenômeno” e o ator Antonio Banderas, no Grand Golf Hotel, e o astro do futebol inglês David Beckham, em um resort em Cabo de São Roque. Eles emprestam nomes e rostos para megaprojetos que seriam construídos no litoral do estado.
Beckham, representando os interesses da duquesa de York, fez o marketing em Cabo de São Roque, tentando convencer a comunidade que a construção seria um ótimo negócio, com a possibilidade de criar uma escolinha de futebol para compensar as perdas sociais de pescadores e rendeiras. Porém, o local abriga reserva natural protegida por lei federal, fato que provocou intervenção da União e paralisou o projeto. Já o Grand Golf Hotel, propagandeado por Ronaldo e Banderas, agora rebatizado Pólo Turístico Ecológico e Aventura de Pitangui e Jacumã, passará por alguns ajustes. Um Termo de Compromisso Ambiental foi firmado entre o Ministério Público e a construtora responsável pela obra, para estabelecer critérios nos municípios de Extremoz e Ceará-Mirim.
“Sabemos por aqui que, além dos cachês, esses figurões ganharam participação imobiliária nos empreendimentos. Muitos destes projetos ainda nem saíram do papel, outros nem obtiveram licenças ambientais, alguns tentaram construir em cima de áreas de preservação ambiental e muitos investidores sumiram após a crise global que se instalou na economia mundial a partir do segundo semestre de 2009. Mas os projetos existem e tem outdoors com os rostos deles estampados”, diz Yuno Silva.
A maioria dos projetos se concentra no litoral norte, numa distância de até 120 km de Natal. Um deles, quando concluído, terá uma área que poderia transformá-lo na quarta cidade do estado em extensão, erguendo mais de 40 mil unidades habitacionais. Comprar terras nessas áreas é extremamente lucrativo. Quilômetros de faixas litorâneas são adquiridos, o que, além de inflacionar o mercado, cria uma expectativa equivocada de progresso, que tropeça na especulação imobiliária. Anteriormente comercializados em moeda nacional, os trechos hoje têm unidades avaliadas em milhões de euros, reflexo da supervalorização gerada pelo excesso de capital especulativo.
Os estrangeiros se aproveitam do apelo publicitário e das condições precárias dos nativos que, por sua vez, esquecem as próprias raízes familiares, vendendo terrenos a baixas quantias. Na realidade, a cultura nativa é massacrada aos poucos. Os habitantes são expulsos da beira mar. Investidores fazem ofertas por distritos inteiros, propondo manter a comunidade no local com um cruel sistema de comodato e período estabelecido. Muitas pessoas ficaram sem terra e não viram o tão falado desenvolvimento. É fato comprovado pelos próprios construtores que a mão-de-obra para erguer os empreendimentos não utiliza potiguares por falta de qualificação e 80% dos postos de trabalho são ocupados por trabalhadores de outros estados.
A falsa promessa de progresso gera frustração em quem já vendeu a propriedade e não tem perspectivas de qualificação profissional para enfrentar a nova realidade, pois não há um programa de inclusão social. A partir disso, surge a explosão de subempregos temporários e informais, além da marginalização das novas gerações, privadas do consumo, sendo o turismo sexual uma das consequências mais graves. Entre 2003 e 2007, o Rio Grande do Norte recebia, semanalmente, voos fretados com 300 homens solteiros, de 25 a 45 anos, oriundos da Europa. Existem registros de aeronaves que chegaram a ser desviadas graças à atuação de entidades civis que pressionam o poder público e buscam enfraquecer a cadeia sexista, que envolve desde o agente de viagem na origem, passa pelo taxista, até chegar a donos de hotéis e pousadas.